sexta-feira, 29 de maio de 2009

Terramoto

Acordar a meio da noite com a cama a abanar, ouvir as portas a bater e a loiça dos armários a tilintar, tudo seguido de um rumor subterrâneo que se afastava lentamente não me fez levantar da cama. Na altura tive a percepção que teria sido um abalo sísmico, mas virei-me para o outro lado e tentei continuar a dormir… Levantei-me perguntando-me se teria sido apenas um sonho ou teria mesmo acontecido o tremor de terra… outros confirmaram-me que tinha mesmo acontecido.

Decididamente, viver onde as forças da Natureza são encaradas como algo que está acima do entendimento humano, não deixa de ter influência nas atitudes de quem é mais racional.

domingo, 17 de maio de 2009

Sensações

A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida
Fernando Pessoa

sábado, 16 de maio de 2009

De Caixão à Cova

Hoje consegui entender o porquê da expressão "bebedeira de caixão à cova"... aqui mesmo em frente, no óbito que ruidosamente ocupou toda a noite, enquanto o caixão já pronto para ir para a cova esparava pela hora marcada, as pessoas em volta embebedavam-se até não poder mais.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Dias

Hoje parece tudo perfeito dentro e fora de mim!
Começou por entre as estrelas e a Lua, já quase Lua cheia, projectadas no negro céu da madrugada. O nascer do Sol com a sua claridade transformou lentamente o negro em azul intenso e as estrelas em pedaços de nuvens de um branco imaculado, dispersos com a harmonia de que só os deuses são capazes. Às vezes, de uma forma inexplicável, acontece esta sintonia entre mim e tudo o que me envolve...
Nestas alturas não posso deixar de me interrogar de onde me virá este canto feliz de um dia.

sábado, 2 de maio de 2009

A Música

Seriam 22horas quando me deitei ao som da música que do outro lado da rua, debaixo de uma mangueira, anima ainda mais os já de si alegres angolanos. A cantina, loja de bairro que se dedica à venda de produtos de primeira necessidade, que organiza a festa é propriedade de gente proveniente das províncias do Norte de Angola, aqui são conhecidos por Langas, e é óbvio que a música dominante na farra é a de lá do Norte, não muito do meu agrado. Mas anima o pessoal que lá aparece sempre pronto para se divertir, e também não me impediu de adormecer com facilidade, nem que dormisse toda a noite sem interrupção. Ajudou sim o meu acordar às seis da manhã com a batida forte do baixo e do batuque no reinício da farra às seis da manhã...

domingo, 26 de abril de 2009

Contrastes

África é mesmo assim. Uma vila com tantas, mas tantas deficiências em necessidades básicas como água potável, energia eléctrica, ensino, combustíveis, e sei lá que mais, tem médicos especialistas em quantidade e qualidade de fazer inveja a muitas povoações de média dimensão em Portugal. E ainda com a vantagem de serem médicos sem vícios mercantilistas, muito mais preocupados com o bem estar do doente do que pelas vantagens económicas que a profissão lhes pode trazer. Pena que o Hospital, do mais moderno que existe em Angola, e já completamente equipado, continue fechado por falta de enfermeiros...

domingo, 12 de abril de 2009

Cansaços

Depois da chuvada que agora se tornou diária e pontual no horário, já se vislumbra algum azul no céu, e o brilho do sol nas gotas da chuva que permanecem agarradas às folhas das plantas faz delas diamantes efémeros, e talvez por isso, ainda mais belos e valiosos que os eternos. À passagem do vento pelas árvores, as folhas acenam verdes. Mais logo, com o descer do sol no horizonte, e quando o fresco da noite se tornar ligeiramente frio, o pouco azul do céu que se mostra vai passar progressivamente ao cinzento e ao negro das nuvens que agora fazem companhia ao azul. Também os verdes e leves acenos das folhas das árvores à passagem da brisa fresca que ameniza o calor, não passarão de manchas de sombras projectadas pelo luar no chão quieto. Tudo fora de mim parece tão perfeito, belo e natural que me sinto destoar do que me rodeia. O que os sentidos acham belo e harmonioso não consegue ser partilhado pelos sentimentos. E esta dificuldade que às vezes tenho em harmonizar o interior de mim com o que me rodeia, traz-me este cansaço de corpo e alma que sinto sem saber de quê, e um cansaço assim é o mais horrível dos cansaços.