Sábado, 24 de Outubro de 2009

Milagres da Água

Assim como a chuva, que já cai com regularidade, vai pintando de verde o negro em que se tornou a paisagem depois da época das queimadas, também a água que aparece a espreitar aqui e ali da tubagem da rede pública, durante os trabalhos de instalação que lentamente continuam, enche-nos de esperança que está para breve a sua chegada às torneiras das casas.

Domingo, 4 de Outubro de 2009

Hoje faltou... a energia.

Tik, plak, plak, trik, trak, plik... Seis da manhã e recomeçou a sinfonia dos martelos e ponteiros que descansavam desde as 22 horas de ontem. Os chineses que estão a fazer obras na casa do outro lado da rua trabalham das seis às 22, de Domingo a Domingo... incluindo feriados. Hoje é Domingo, os chineses acordaram-me às 6 como em qualquer outro dia e quando tentei acender a luz o interruptor disse-me que ia ser mais um Domingo sem energia. Se o problema for de Cambambe deixa-nos a esperança que ainda hoje voltaremos a ter energia. Se for aqui na terra já sabemos que só amanhã ao meio da manhã regressará. Nenhum angolano repara uma avaria ao Domingo e o sistema de distribuição de energia não está entregue aos chineses... talvez devesse estar...

Foi notícia de jornal que na semana passada em Luanda os chineses não trabalharam dois dias... fetejavam-se os 60 anos da revolução chinesa, tiveram direito a dois feriados extensivos a quase todos os chineses do mundo... quase todos porque parece que a notícia não chegou até aqui. Não dei por que tivessem parado um único dia. Confesso que quando aqui cheguei nutria uma certa admiração pelos chineses. Pela sua capacidade de trabalho e de adaptação a ambientes desconhecidos e por vezes hostis, pela sua grande organização e pela humildade. Hoje mais conhecedor da realidade sei que a capacidade de trabalho é imposta e a humildade era aparente e servia apenas para camuflar uma imensa arrogância que vai aparecendo à medida que a máscara vai caindo. De momento, como ponto positivo, reconheço-lhes apenas o grande poder organizativo.

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

A Chuva

Depois de longa ausência anunciou-se de mansinho pelo amanhecer... tal como a chuva, também de mansinho parece voltar a vontade de passar por aqui.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Montanhas

Montanhas do Lussusso - Libolo



Agora aqui, mais logo ali, pé ante pé as colunas de fumo vão tomando conta da paisagem. Em poucos dias sem chuvas o vento quase constante e seco levou o verde predominante da paisagem e deu-lhe uma imagem acastanhada. Abriu caminho para o fogo aparecer em cena, deixando tudo preto à sua passagem enquanto mistura o seu fumo com a neblina que paira constantemente e quase invisível na atmosfera. A paisagem fica da cor do carvão, o azul imaculado do céu toma uma cor indefinida mas o véu atmosférico que resulta da mistura do fumo com a neblina, cria um matizado de uma beleza indescritível nas montanhas que nos rodeiam.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Silêncio

O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem

Eugénio de Andrade

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

O Conferente

A princípio é um desfile de acontecimentos estranhos e bizarros a correr diante dos olhos, mesmo para olhos com sensibilidade africana. O tempo passa e o que nos parece bizarro a princípio passa a ser encarado com naturalidade. Mas há sempre mais uma surpresa guardada...

BPC do Dondo envolto no calor infernal e habitual daquela terra. Dentro da agência bancária atulhada de gente, o ar condicionado avariado torna a temperatura no interior ainda maior. O ambiente está abafado e paira no ar um cheiro pouco agradável de corpos transpirados. A fila para os depósitos é extensa e não deixa grandes expectativas de um atendimento rápido. Com paciência e resignação cada um refresca-se como pode usando leques improvisados, na tentativa de amenizar os 45 minutos necessários para chegar ao caixa... imediatamente antes de ser atendido, um outro funcionário pede o dinheiro e o talão de depósito, confere tudo, ata o dinheiro com um elástico e devolve-o ao cliente para que faça o depósito no caixa... O caixa voltou a conferir, estava certo e registou. Fiquei sem saber se desconfiam tanto de mim, ao ponto de serem necessários dois funcionários para conferir o meu dinheiro, ou se eram os funcionários que desconfiavam um do outro. Mas que é uma boa medida para combater o desemprego, lá isso é.

Domingo, 7 de Junho de 2009

Diferenças

Instalou-se o Cacimbo e as manhãs luminosas e quentes deram lugar a amanheceres frescos envoltos em nevoeiros que se prolongam por vezes até ao meio dia. O céu que por esta hora se cobria de nuvens escuras a anunciar a chuvada quase diária, aparece de um azul imaculado e assim permanece até ao pôr do Sol. Com a ausência da chuva, as viagens em picadas deixaram de ser feitas sobre um mar de lama e passaram a realizar-se através de uma nuvem de poeira que cobre tudo com uma fina camada amarela de pó. O verde exuberante da paisagem, pouco a pouco muda para um verde seco à espera do fogo prestes a entrar em cena e transformar o verde em negro, negro que em pouco tempo renascerá novamente verde, a fechar mais uma vez o ciclo da Natureza...