quarta-feira, 18 de março de 2009

A Chuva

Finalmente, alguma da chuva que tem caído como uma calamidade noutras partes de Angola, chegou a esta região sedenta de água como uma benção. Duas grandes chuvadas transformaram miraculosamente linhas de água já completamente secas em ribeiros alegres, com um caudal bastante consistente mesmo depois de passada a água da enxurrada. Tal como as suas gentes, também a natureza em África é feita de extremos…

sexta-feira, 13 de março de 2009

A Viagem

Dezanove horas depois do início da viagem o avião parece sobrevoar o paraíso. O pôr do Sol incendeia as águas do Oceano, polvilhado de ilhas e navios preguiçosamente à espera de vez de entrar no porto, com as suas cores quentes. Mas quando nos aproximamos do solo e vamos pouco a pouco conseguindo vislumbrar os milhares de habitações precárias que cobrem toda a área por baixo de nós, mergulhadas num caos urbanístico difícil de descrever, começamos a desconfiar que aquela visão paradisíaca não passe de uma ilusão…

A aterragem perfeita do 747 das Linhas Aéreas da África do Sul que nos transportou leva-nos à confirmação das suspeitas. Ao sair do avião um dos passageiros não suportou o choque proporcionado pelos mais de trinta graus de temperatura, associados a um teor de humidade doar a rondar os 90%. Desfaleceu e teve que receber assistência médica. Devido a deficiências na rede de telemóveis, apenas três quartos de hora depois da aterragem foi possível fazer o primeiro contacto telefónico. Numa sala com a temperatura vários graus a cima da temperatura ambiente do exterior e já com toda a gente a destilar, consegui falar por telefone com a pessoa que me vinha buscar. Estava ainda a duzentos quilómetros e à procura de gasóleo para prosseguir a viagem até Luanda. Esgotado nas bombas, só a candonga poderia resolver o problema. Entre encontrar o gasóleo, fazer os duzentos kilómetros e vencer o engarrafamento crónico em que Luanda está transformada quase 24 horas por dia, foram mais três horas de espera com duas opções… ou sentado na sala do desembarque das bagagens mergulhado em suor e 40º de temperatura, ou cá fora de pé onde a temperatura se tornou bem mais suportável com o cair da noite. Para quem tinha acabado de fazer uma viagem de 7 horas sentado, a decisão não foi difícil tomar… mas foi difícil de suportar.

Às 22 horas chegou a minha boleia. Depois de uma paragem num restaurante para eu comer um bitoque com um bife tipo borracha, e o meu companheiro devolver uma omeleta intragável por excesso de sal, metemo-nos à estrada pelas 23:30 horas. Mais três horas a enfrentar corajosamente os máximos nunca baixados ou os faróis completamente desalinhados dos automóveis que se cruzaram connosco, e estávamos em casa. Cansados mas inteiros…

Tentei enviar um SMS mas a rede estava off… no dia seguinte ao acordar a rede continuava off, agora acompanhada pela energia eléctrica que também falhou. Quarta feira não houve alterações e quinta até à hora a que saí para o interior tudo continuava na mesma. Hoje é sexta, muito em breve vou para a vila e apesar de tudo conto conseguir publicar este post… o optimismo é uma grande mais valia dos angolanos. J

A Viagem

Dezanove horas depois do início da viagem o avião parece sobrevoar o paraíso. O pôr do Sol incendeia as águas do Oceano, polvilhado de ilhas e navios preguiçosamente à espera de vez de entrar no porto, com as suas cores quentes. Mas quando nos aproximamos do solo e vamos pouco a pouco conseguindo vislumbrar os milhares de habitações precárias que cobrem toda a área por baixo de nós, mergulhadas num caos urbanístico difícil de descrever, começamos a desconfiar que aquela visão paradisíaca não passe de uma ilusão…

A aterragem perfeita do 747 das Linhas Aéreas da África do Sul que nos transportou leva-nos à confirmação das suspeitas. Ao sair do avião um dos passageiros não suportou o choque proporcionado pelos mais de trinta graus de temperatura, associados a um teor de humidade doar a rondar os 90%. Desfaleceu e teve que receber assistência médica. Devido a deficiências na rede de telemóveis, apenas três quartos de hora depois da aterragem foi possível fazer o primeiro contacto telefónico. Numa sala com a temperatura vários graus a cima da temperatura ambiente do exterior e já com toda a gente a destilar, consegui falar por telefone com a pessoa que me vinha buscar. Estava ainda a duzentos quilómetros e à procura de gasóleo para prosseguir a viagem até Luanda. Esgotado nas bombas, só a candonga poderia resolver o problema. Entre encontrar o gasóleo, fazer os duzentos kilómetros e vencer o engarrafamento crónico em que Luanda está transformada quase 24 horas por dia, foram mais três horas de espera com duas opções… ou sentado na sala do desembarque das bagagens mergulhado em suor e 40º de temperatura, ou cá fora de pé onde a temperatura se tornou bem mais suportável com o cair da noite. Para quem tinha acabado de fazer uma viagem de 7 horas sentado, a decisão não foi difícil tomar… mas foi difícil de suportar.

Às 22 horas chegou a minha boleia. Depois de uma paragem num restaurante para eu comer um bitoque com um bife tipo borracha, e o meu companheiro devolver uma omeleta intragável por excesso de sal, metemo-nos à estrada pelas 23:30 horas. Mais três horas a enfrentar corajosamente os máximos nunca baixados ou os faróis completamente desalinhados dos automóveis que se cruzaram connosco, e estávamos em casa. Cansados mas inteiros…

Tentei enviar um SMS mas a rede estava off… no dia seguinte ao acordar a rede continuava off, agora acompanhada pela energia eléctrica que também falhou. Quarta feira não houve alterações e quinta até à hora a que saí para o interior tudo continuava na mesma. Hoje é sexta, muito em breve vou para a vila e apesar de tudo conto conseguir publicar este post… o optimismo é uma grande mais valia dos angolanos. J

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Os Chineses 3





25/01/09
A manhã começou luminosa mas não conseguia apagar a perspectiva de um domingo burro. Fim-de-semana sem nenhum acontecimento relacionado com o jet set cá do sítio ou sem futebol, outro acontecimento que também enche a vila de calulenses da diáspora, é sempre um domingo burro. (Burro em linguagem angolana é a classificação dada a tudo o que não presta.) Para matar a manhã tínhamos umas fotos programadas às obras do estádio. Para a tarde alguma coisa se arranjaria…

À chegada ao estádio estranhamos a falta de movimento. Ninguém nos postos de trabalho habituais sete dias por semana. Alguma coisa de muito estranho se passava. Já no interior tornaram-se perceptíveis vozes que chegavam de um dos anexos do estádio. Ocorreu-nos que talvez estivessem em reunião e fomos entrando um pouco a medo. Nada de reunião. Na camarata, que também serve de sala de refeições, chineses e angolanos conviviam à mesa com um registo de som das vozes exageradamente elevado, intercalada por sonoras gargalhadas, nada habitual nos dias de trabalho.
-Entrem, entrem – disseram lá de dentro logo que nos avistaram à porta. Alguns passos na direcção deles e já tinha nas mãos uma cerveja Cuca, natural, e dois cigarros AC.

Intrigadíssimos com aquela euforia tão latina em chineses conhecidos pelo seu modo reservado, ainda demoramos alguns minutos a conseguir perceber o que se passava. Era a comemoração da entrada do novo ano chinês. Sugeri umas fotografias para recordação. Aceitaram a sugestão com entusiasmo e o programa de sessão fotográfica às obras do estádio foi para o espaço. Pediram fotografias em grupo, sozinhos, com o chefe angolano, repetindo até à exaustão… Chefe bom, chefe amigo…

A partir daí foi só surfar a onda. Muita cerveja em brindes sucessivos, quando algum dos chineses bebia um golo sugeria um brinde em grupo ou a um dos presentes em particular. Nunca bebiam um golo sem a companhia de alguém e como todos faziam questão em oferecer também a sua cerveja, matéria prima para os brindes nunca faltou. Muitos cigarros recebidos directamente para o bolso, não fumo mas segredaram-me que não aceitar um cigarro quando nos é oferecido pode ser considerado uma ofensa, e muita comida chinesa. Detesto a comida chinesa que é fornecida nos restaurantes chineses da Europa, o que me fez aceitar com alguma relutância provar a comida quando me convidaram para lhes fazer companhia na refeição. Muita carne e legumes, tudo muito cortadinho, com um paladar ligeiramente diferente do da nossa cozinha mas sem nenhuma semelhança com o que se come nos restaurantes chineses. Gostei e não me fiquei pelo provar. Com algumas explicações ao fim de pouco tempo já conseguia apanhar na perfeição os pedacinhos mais pequenos com os talheres tradicionais chineses. Com linguagem gestual consegui perguntar por que não utilizam talheres Europeus e entender a resposta. Disse o meu interlocutor que trabalhar com pauzinhos obriga ao trabalho de todos os músculos do braço e de uma grande parte do cérebro, funcionando como um relaxante para a comida ter uma melhor digestão. Apesar dos nossos esforços não conseguimos saber qual o animal do novo ano chinês, mas saímos de lá muito mais ricos do que tínhamos entrado na capacidade de compreender os diferentes.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Amostra Sem Valor


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão



E assim, graças à falta de inspiração e da motivação em baixa, consigo elevar o nível do Blog

domingo, 18 de janeiro de 2009

O Amor

Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.
Amor que pode ser eterno
mas pode ser fugaz.
Amor que se quer liberar
para seguir amando.
Amor divinizado que vem vindo
Amor divinizado que se vai.

Pablo Neruda

sábado, 17 de janeiro de 2009

Um Serão à Fogueira

Chegaram de longe. Quase 200Km mais para o interior, de onde além de alguns campos de milho e de feijão para consumo próprio e algumas bananeiras para o fabrico de capuca pouco mais há. O tio e mais dois já com alguns anos e os dois sobrinhos com cara e corpo de criança queriam emprego. Alguém que já cá trabalhou indicou-lhes onde poderiam encontrar emprego com comida e algum dinheiro ao fim do mês.

Aceitar o homem e dispensar os miúdos, via-se que tinham menos dos dezasseis anos permitidos por lei para trabalhar mas eles afirmavam que os tinham, estava fora de questão. Vieram em pacote e teriam de ser aceites ou rejeitados em pacote. Sabíamos que caso fossem rejeitados o destino talvez fosse regressar a casa , e agora sem os meios que entretanto tinham sido gastos na viagem. Foram integrados na força de trabalho. O adulto no trabalho normal e as crianças no serviço de apoio à nossa cozinheira São sobrecarregada de trabalho.

Os dias passaram, os miúdos adaptaram-se bem a um mundo totalmente desconhecido de pratos de sopa, pratos pratos rasos, copos para água, copos para vinho, canecas para café, etc, etc, uma cnfusão de todo o tamanho para quem até agora sempre comeu com a mão, e apenas tinha um prato e uma caneca de esmalte que serviam para tudo.

Com os dias a passar ganharam confiança e me apanhei com os dois sentados à fogueira depois de jantar perguntei ao que me parecia mais novo.
-Dezasseis anos-foi a resposta pronta.
-Isso foi o que te mandaram dizer, deves ter treze...
-Tem catorze, disse o outro depois de momentos de silêncio comprometedor.
-E tu, quantos anos tens?
-Eu tenho 15!
-Estudaste?-Dirigi-me novamente ao mais novo.
-Tenho a terceira.
-Tens que estudar mais, a terceira é muito pouco.
-Não tenho cédula. Venho ganhar dinheiro para comprar a cédula!
-Quanto custa a cédula?
-Quatro mil Kuanzas... (Metade do salário mínimo)
-O teu pai não tem dinheiro para comprar a cédula?
Baixou a cabeça e fez um silêncio prolongado...
-O pai dele foi embora no tempo da guerra e não voltou-respondeu o primo...